domingo, 20 de maio de 2018

Possessões Demoníacas

Foi Satanás (disfarçado de serpente) que primeiramente mentiu para Eva e a tentou a desobedecer a Deus ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Aprendemos de outras passagens que Satanás já foi, uma vez, um dos anjos de Deus, mas que se rebelou contra Deus, desejando ter um lugar que não lhe pertencia. Outros anjos evidentemente se rebelaram juntamente com ele, de modo que agora há milhares de demônios que constituem as hostes de Satanás. Eles estão constantemente buscando frustrar os propósitos de Deus e frequentemente o fazem vivendo em homens e mulheres, influenciando suas mentes e corpos de uma maneira ruim. Às vezes essa influência maligna envolve a tomada de controle da alma e do espírito humano (e finalmente do corpo) e a produção de sintomas de doença mental.

Há vários exemplos disso nas Escrituras. Em Mateus 17:14-21, temos a história de um garoto que foi possuído por um demônio, e que, como resultado, foi descrito por seu pai como "lunático e [que] sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes na água". Quando o Senhor Jesus expulsou o demônio, a criança foi curada. Em Marcos 5:1-20 lemos a história de um homem que estava possuído por demônios, e que vivia entre as tumbas, nu, gritando e se cortando com pedras. Quando Jesus expulsou os demônios, ele apareceu "vestido e em perfeito juízo" (Marcos 5:15).

Houve muitos outros relatos de testemunhas oculares que contam daqueles que agiram de modos muito anormais, evidentemente por causa da influência de demônios que os possuíram e perturbaram. Muitas vezes as alucinações e comportamento bizarro exibidos por essas pessoas é atribuído a outras causas, até que a verdadeira natureza do problema é reconhecida. Pessoas em países africanos e asiáticos sabem bem como feitiços e macumbas podem afetar não apenas o corpo, como também a mente das pessoas. Um psiquiatra americano, que trabalhou no Zimbábue por um ano, relata o seguinte, no que diz respeito a um paciente que ele foi chamado a tratar (o termo "irmã" refere-se simplesmente a uma enfermeira):
"'Você consegue entender o que ela está dizendo, Irmã?' 
"'Sim, algumas coisas', respondeu a Irmã Chimhenga. 'Amai está dizendo que sua bisavó, Ambuya Zezuru, está falando com ela, e a possuindo. Ela é chamada por Ambuya para sofrer por seus pecados.' 
"Eu sabia o que a palavra Shona 'ambuya' significava, e que 'amai' significava 'mãe' ou 'patroa', mas eu não tinha entendido todo o significado cultural da interpretação da Irmã. 'Irmã, me desculpe, mas o que isso tudo significa?' 
"'Significa que Amai acredita estar enfeitiçada por sua bisavó, que pode ter sido uma profetiza em seu tempo. Um espírito ancestral importante.' 
"'Um feitiço?' 
"'Poderia ser', disse ela, pausando. 'A família dela deve ter pensado assim'"*
{* Linde, Paul R., Of Spirits and Madness. (New York, McGraw-Hill, 2002), pg. 105}

Infelizmente, enquanto grande parte do mundo definha em cativeiro nas mãos de tais forças malignas, muitas pessoas nos países ocidentais negam a existência de Satanás. O poder de Satanás está aumentando em países antes considerados cristãos, à medida que Deus e Suas reivindicações estão sendo cada vez mais deixadas de lado. Considere o seguinte incidente que ocorreu na prática de um médico cristão que eu conheço bem:
"Há cerca de seis anos atrás, eu estava entrevistando uma mulher em um quarto de hospital. Ela estava seriamente deprimida e não respondia aos remédios. Enquanto eu lhe fazia perguntas sobre seus pensamentos, ela de repente desenvolveu um olhar 'vidrado', e eu logo soube que ela não podia mais me ouvir. Ela parecia estar congelada em seus próprios pensamentos enquanto fixava o olhar para o nada. Momentos depois, ela falou com uma voz mecânica e antinatural: 'Deixe ela em paz; ela é nossa!' 
"Não foi necessário muito discernimento para perceber que eu não estava mais falando com minha paciente e que uma força maligna e sobrenatural tinha empurrado ela para o lado para me intimidar diretamente."*
{* Mullen, Grant, M.D., Emotionally Free. (Chosen Books, Grand Rapids, MI, 2003), pg. 103, 109 }

Como o médico já tinha percebido nesse caso, os remédios usuais para tratar a depressão não estavam surtindo efeito naquela mulher. Uma força maior do que ela mesma tinha tomado posse dela, e apenas pelo expulsar do demônio ela poderia ser curada. Às vezes, aqueles sob poder demoníaco ouvirão vozes ou verão coisas irreais, e ocasionalmente é difícil saber, ao menos no início, se o indivíduo está sofrendo de uma doença psicótica ou se está experimentando um ataque demoníaco. Às vezes, profissionais que não são crentes não reconhecerão o que está acontecendo e colocarão o paciente sob medicação a princípio, apenas para descobrirem que ela não vai funcionar de forma previsível.

Desde o tempo em que o mundo rejeitou o Senhor Jesus Cristo, as Escrituras chamam Satanás tanto de deus como de príncipe deste mundo (Veja 2 Coríntios 4:4 e João 14:30). Ele é o deus deste mundo religiosamente e seu príncipe politicamente. Ele sabe que é um adversário derrotado, mas neste tempo da graça de Deus, ele continua sendo o "príncipe das potestades do ar" (Efésios 2:2), realizando a sua obra maligna. Ele pode habitar em um incrédulo, assumindo o controle de sua pessoa e o forçando a fazer o que quer que o espírito maligno comande. Embora ele não possa habitar em verdadeiros crentes (porque são habitados pelo Espírito de Deus), ele pode e consegue perturbá-los, especialmente aqueles que podem ter se envolvido com práticas ocultas antes de serem salvos. Ler livros pecaminosos (tais como os pornográficos) ou ocultos, ou assistir a entretenimentos que contenham temas malignos, pode abrir a porta para esses ataques demoníacos. Além disso, envolver-se deliberadamente em práticas ocultas (tais como usar tabuleiros Ouija, cantar chamadas ao mundo espiritual, envolver-se com adivinhos, etc.) pode convidar esses espíritos malignos para nossas vidas.

O único remédio para a possessão demoníaca é a autoridade do Senhor Jesus que pode comandar que um demônio saia da pessoa. O Senhor Jesus fez isso várias vezes durante seu ministério na Terra, e certamente os apóstolos também o fizeram. O Senhor Jesus tornou esse poder disponível a todos os crentes, através de Seu nome. Antes de subir de volta para o céu, o Senhor Jesus disse: "E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios" (Marcos 16:17). Agora é possível que demônios sejam expulsos daqueles afligidos por eles por causa do poder no nome do Senhor Jesus. A seguinte história real mostra como isto aconteceu no caso de uma mulher possuída por demônios:
"A senhora K... veio me ver para falar de uma depressão de longa data. Ela estava muito vaga e nervosa durante a primeira parte da entrevista. Após alguns minutos de conversa fiada e questões preliminares ela me disse: 'Estou com dificuldade em te ouvir pois há três pessoas falando comigo continuamente em minha mente.' Bem, essa era uma experiência nova para mim. Ela claramente não era esquizofrênica, então eu sabia que não se tratava de uma doença psicótica fazendo-a ouvir vozes. Ela estava totalmente sã, embora deprimida. 
"Eu não sabia muito bem o que fazer, mas eu me perguntei se ela estaria tendo uma daquelas experiências ocultas que eu tinha passado tantas horas perguntando sobre. Essa interferência tornaria a entrevista muito difícil, então eu fiz uma pausa e fiz algumas notas simples em sua ficha para comprar tempo. Em meu coração eu disse a Deus: 'Eu não sei o que está acontecendo aqui. Se essa mulher está ouvindo espíritos malignos, em nome de Jesus, por favor, cale-os para que eu possa terminar esta entrevista' .
"Quando, então, eu levantei meus olhos das anotações, ela olhava para mim com uma intensidade que eu não tinha visto nela antes e disse: 'O que você acabou de fazer?' Eu expliquei que eu tinha apenas anotado sua última fala na ficha. Ela não se contentou com essa resposta e persistiu: 'Não, você fez mais alguma coisa.' Eu estava confuso naquele momento e novamente afirmei que eu só estava escrevendo em sua ficha, e perguntei o que a fazia pensar que eu teria feito qualquer outra coisa. Sua resposta mudou o curso da minha vida espiritual e profissional quando ela afirmou: 'Você fez algo, pois as vozes pararam pela primeira vez em vinte anos. Elas estão agora se escondendo, e estão com medo de você. O que você fez?'... 
"Minha mente de repente se abriu para o fato de que sim, de fato, ela estava sã e estava sendo atormentada por vozes de demônios. Eles pararam de falar com ela porque quando eu orei a autoridade de Cristo encheu a sala e eles ficaram com medo..."*
{* Mullen, Grant, M.D., Emotionally Free. (Chosen Books, Grand Rapids, MI, 2003), pg. 90-91 }

É importante reconhecer o poder demoníaco como uma causa muito real de doença mental, não apenas em tais casos óbvios como o que acabamos de citar, mas também em outras manifestações tais como em padrões de pensamento malignamente distorcidos, insônia, pesadelos e ataques de pânico. Como a Palavra de Deus é abandonada e os valores e princípios cristãos são cada vez mais ignorados, acredito que estamos vendo um aumento na atividade de Satanás em países onde seu poder era anteriormente restringido em grande parte pela luz do Cristianismo.

Para o crente, o melhor antídoto para tais ataques de Satanás é uma vida vivida em comunhão com o Senhor. Os efésios tinham sido pesadamente envolvidos em práticas ocultas antes de ouvirem o evangelho, mas após terem sido salvos foi registrado em Atos 19:19 que "muitos dos que seguiam artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos". Em sua epístola a esses mesmos crentes alguns anos depois, Paulo pôde dizer-lhes: "E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as" (Efésios 5:11). Aos colossenses ele pôde dizer: "Ao Pai... o qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor" (Colossenses 1:12,13). O crente foi libertado do poder de Satanás, mas se ele persiste em viver uma vida mundana e se ocupa com comportamentos pecaminosos, ele novamente se coloca em uma posição na qual Satanás o pode perturbar. Lembremo-nos que fomos libertos do reino maligno de Satanás, e que somos agora chamados a "andarmos como filhos da luz" (Efésios 5:8). Se obedecermos a essa exortação, não daremos a Satanás a oportunidade de ganhar influência sobre nós.

A Vontade

Já vimos que a vontade está conectada ao "eu" consciente -- a parte de nós que está acima do espírito, alma e corpo, e que definitivamente é capaz de influenciar e controlar todos os três. A vontade foi afetada pelo pecado, tanto que o homem caído agora tem vontade de fazer o mal. Assim Deus pôde dizer, no que diz respeito à humanidade nos tempos de Noé: "Toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" (Gênesis 6:5). De fato, todo o exercício da vontade do homem é errado em si mesmo, pois, como criatura, a responsabilidade do homem é a de obedecer.

A palavra usada para o pecado e a iniquidade nas Escrituras pode realmente ser traduzida como "desobediência" ou "ilegalidade", simplesmente significando o exercício de uma vontade independente. Uma vontade independente está sempre errada, mesmo quando estiver fazendo coisas que possam não ser erradas em si mesmas. Mas essa vontade sempre vai querer fazer o mal, por causa da natureza pecaminosa do homem. O crente possui uma nova vida em Cristo, uma nova natureza que deseja agradar a Deus. Assim em 1 Pedro 4:2 lemos que "as concupiscências dos homens" contrastam com "a vontade de Deus".

Pelo fato da vontade ser afetada por nosso ego pecaminoso, "a carne", como nos dizem as Escrituras, vemos que a mente também é afetada. Colossenses 2:18 fala de alguém que está "debalde (em vão) inchado na sua carnal compreensão (mente)", enquanto Romanos 8:7 nos lembra que "a inclinação (mente) da carne é inimizade contra Deus". Paulo pôde falar sobre como eram os efésios antes de serem salvos: "fazendo a vontade da carne e dos pensamentos (mente)" (Efésios 2:3). A mente foi feita serva de nossa natureza pecaminosa, e Satanás usa as cobiças malignas do homem para induzi-lo a cometer pecado.

A Carne

Outro termo que precisamos definir é o que as Escrituras chamam de "carne". A palavra é usada de várias maneiras na Palavra de Deus. Às vezes é usada simplesmente para indicar o corpo como algo distinto da alma e espírito, como por exemplo em 1 Coríntios 15:50, onde nós é dito: "A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus". A palavra pode também ser usada para descrever a natureza humana em geral -- o homem em todo o seu ser. Referindo-se à encarnação, lemos que "Deus se manifestou em carne" (1 Timóteo 3:16), e certamente isto implica mais do que simplesmente o fato de que o Senhor Jesus tomou um corpo. Ele teve uma alma e espírito humano (sem pecado), pois Ele foi um homem em todo o sentido da palavra. Do mesmo modo, quando Pedro e os outros caíram no sono no jardim de Getsêmani, o Senhor pôde dizer: "O espírito está pronto (disposto), mas a carne é fraca" (Mateus 26:41). O "eu" consciente de Pedro desejava seguir o Senhor, mas ele não percebeu a fraqueza de sua carne natural. Todo o seu ser natural estava envolvido nessa fraqueza, e não apenas seu corpo. Mas a palavra é também usada para descrever aquele ego pecaminoso que o homem adquiriu quando caiu -- a natureza pecaminosa do homem que não pode fazer nada além de pecar. Assim lemos em Romanos 7:18: "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum". Paulo pôde dizer aos gálatas: "Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção" (Gálatas 6:8). William Kelly faz os seguintes comentários no que concerne ao termo "a carne":
"Eu emprego a expressão 'natureza humana' de forma abstrata para a humanidade, sem questionar o estado em que foi originalmente criada ou no qual rapidamente caiu. Nesse sentido a palavra 'carne' é às vezes usada  nas Escrituras simplesmente para se referir à natureza do homem, como em: "E o Verbo se fez carne" (João 1:14), "Deus se manifestou em carne" (1 Timóteo 3:16), Jesus foi "mortificado, na verdade, na carne" (1 Pedro 3:18), "Jesus Cristo veio em carne" (1 João 4:2,3, etc.), etc. O sentido doutrinal especial do termo, ao caracterizar a condição moral da raça, particularmente nas Epístolas de Paulo, aponta para o princípio da vontade própria no coração"*

{* Kelly, William, Christ Tempted and Sympathizing. (The Bible Treasury, Vol. 20), pg. 173-4 }

O Intelecto

O intelecto pode também ser visto como parte da mente, como sendo aquilo que o homem usa para raciocinar, e que o capacita a usar conhecimentos adquiridos para fazer deduções. Em um outro sentido, é também parte do cérebro, naquilo que está ligado à capacidade de aprender, e então de usar o que foi aprendido. Assim, um intelecto pode ter habilidades em diferentes vertentes, pois uma pessoa pode ser boa em matemática e outra pode ser excelente em escrita criativa. É importante reconhecer que o intelecto nunca pode descobrir qualquer coisa no que diz respeito às coisas divinas: ele pode deduzir conclusões corretas, mas jamais pode ir além disso. O homem, quanto a sua mente e intelecto, é sempre um descobridor, nunca um criador. Ele pode usar seu intelecto para raciocinar com conhecimento e assim chegar a conclusões corretas, mas o próprio conhecimento é sempre o produto do testemunho ou da experiência.

A Mente

A mente é aquela que pensa, percebe e raciocina. De acordo com as Escrituras, temos algum controle sobre ela, pois elas nos instruem a "termos nossa mente nas coisas que estão acima, e não nas coisas que estão na terra" (Colossenses 3:2, tradução de J. N. Darby). Meu coração (como morada da afeição) vai atrás das coisas que são importantes para mim, mas eu possuo a capacidade de colocar minha mente em algo como um ato de minha vontade. Assim, minha vontade, enquanto em um sentido faça parte da minha mente, também a controla e direciona de diferentes formas. Assim o homem em Romanos 7:25 diz: "Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado". Aqui sua mente deseja fazer o que é certo, mas sua carne, seu velho ego pecaminoso, só consegue pecar. No incrédulo, sua mente é influenciada e está definitivamente sob o controle de sua carne, seu ego pecaminoso, e Satanás usa isso para manipular sua mente de um modo maligno. Assim lemos sobre Nabucodonosor cujo "coração se exaltou, e o seu espírito se endureceu em soberba" (Daniel 5:20). Romanos 12:2 fala da "renovação do vosso entendimento (mente)" como um resultado da mente estar sob o controle do Espírito de Deus em vez de estar sob o controle de Satanás e da carne.

O Coração

O "coração" é uma expressão muito geralmente usada para se referir ao homem interior. Às vezes é mencionado como a sede da afeição e do desejo, e em outras como o ego pecaminoso com seus desejos malignos. Quando as Escrituras dizem: "Se o nosso coração nos condena" (1 João 3:20), então está se referindo à consciência. Quando lemos: "Dá-me, filho meu, o teu coração" (Provérbios 23:26), diz respeito as nossas afeições. Em Jeremias 17:9 descobrimos que "enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" Aqui é o homem em toda sua pecaminosidade como um resultado de sua queda. Quando lemos: "O véu está posto sobre o coração deles" (2 Coríntios 3:15), trata-se da percepção espiritual ou a falta dela. Assim o coração se refere a qualquer exercício moral que ocorre dentro de nós, mas a palavra deve ser interpretada, até certo ponto, pelo contexto em que é usada.

domingo, 18 de março de 2018

O "Eu" e a Personalidade

No entanto, o assunto é muito mais complicado até mesmo do que considerações tratadas podem indicar. Vimos que o homem é um ser tripartido composto de corpo, alma e espírito. Enquanto cada um é distinto do outro, sabemos que cada um se comunica com o outro, e cada um afeta o outro, seja positiva ou negativamente. A alma e o espírito devem operar e se expressar através do corpo, e o corpo não pode funcionar sem a alma e o espírito. Assim, as Escrituras nos dizem que "o corpo sem o espírito está morto" (Tiago 2:26). Assim como o corpo não pode fazer nada sem a alma e o espírito estarem nele, assim a alma e o espírito não podem se expressar neste mundo sem um corpo. Os três devem trabalhar juntos.

Mas como eles trabalham juntos? O que é que orquestra a união do espírito, alma e corpo de modo que possam funcionar de maneira integrada? Já observamos o versículo que nos diz que "[Ló] afligia todos os dias a sua alma justa" (2 Pedro 2:8). Em Provérbios, Salomão fala de alguém "que domina o seu espírito" (Provérbios 16:32, Almeida Atualizada). Paulo podia dizer aos crentes em Roma: "Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal" (Romanos 6:12). É evidente que há um "eu" consciente, aquela essência do indivíduo que influencia e dirige o espírito, alma e corpo, mas que não faz parte desses três. Todos os três -- espírito, alma e corpo -- são unidos sob uma personalidade, ainda que o "eu" esteja acima deles, e assim é mais do que a soma do espírito, alma e corpo. A seguinte excelente citação resume o assunto para nós, e delineia a diferença entre o "eu" consciente, o espírito, a alma e o corpo:
"Ademais, julgamos que as Escrituras distinguem entre 'personalidade' – o 'eu' consciente – e o espírito, a alma e o corpo, já que nem definitivamente, e muito menos exclusivamente, identifica a personalidade em algum dos três. Lemos que 'o espírito do profeta está sujeito ao profeta' (1 Co 14:32). Temos o verso no Velho Testamento que diz: 'Aquele que governa o seu espírito' (Pv 16:32). Em conexão com a alma, Davi disse: 'humilhava a minha alma' (Sl 35:13); 'Levanto a minha alma' (Sl 86:4). Salomão fala de um homem que destrói a sua alma e violenta a sua alma (Pv 6:32 e Pv 8:36). Em relação ao corpo, Paulo pôde dizer: 'subjugo o meu corpo' (l Co 9:27). Essas e muitas outras passagens parecidas poderiam mostrar que, no homem, há a união do material e do espiritual sob uma única personalidade, como disse alguém: 'Dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, observamos que todos, dentro de si, possuem uma autoridade central, dirigindo e controlando, por um lado, os movimentos e as operações de uma estrutura animal, e por outro, as faculdades e esforços de um espírito inteligente, ambos os quais encontram, nessa autoridade ou pessoa central, o seu ponto de unidade. Quanto isso pode ser desconhecido para nós'. A isso podemos acrescentar que, se a morte sobrevier, o 'eu' está identificado com aquilo que é imaterial – o espírito e a alma – e, quando ainda no corpo, seja agora ou no estado de ressurreição, o 'eu' está certamente identificado com o espírito, a alma e o corpo."*

{* Smith, Hamilton, "O Filho de Deus - Sua Deidade, Encarnação, e Humanidade". Disponível em https://pt.scribd.com/document/106757661/O-Filho-de-Deus-Sua-Deidade-Encarnacao-e-Humanidade}

Como o autor da citação acima diz, tudo isso está além da compreensão humana. Deve ser observado, no entanto, que na citação acima, o autor usa a palavra "personalidade" para descrever a essência do próprio indivíduo, não meramente os traços particulares que distinguem um indivíduo do outro. Somos lembrados do que a Palavra de Deus diz em Eclesiastes 11:5: "Assim como tu não sabes qual o caminho do vento [espírito], nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas". Observamos neste versículo que ambos o espírito e o corpo (ossos) são mencionados, mostrando-nos que realmente não sabemos como o espírito entra no corpo, ou mesmo como o próprio corpo é formado. O homem pode ter descoberto o DNA, mas como isso tudo funciona é ainda um mistério. Como não podemos entender o "caminho do espírito", e "nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida", assim não podemos entender exatamente como as partes físicas e não físicas do ser humano interagem umas com as outras.

Muitas questões surgem nesse ponto, e algumas delas não podem ser respondidas. Como essa coisa que chamamos de "vontade" energiza a alma e espírito, e como a alma e o espírito se comunicam com o cérebro (o corpo) de modo que os atos voluntários possam ser executados? Como o corpo influencia a alma e o espírito? O que é a dor, e por que a sentimos? Por que interpretamos um odor como sendo prazeroso e outro como sendo ruim? Tais questões podem ser interessantes, mas, novamente, estão definitivamente além de nossa compreensão.

Por causa da natureza complexa do homem, descobrimos que alguns aspectos da doença mental serão, do mesmo modo, impossíveis de serem explicados. A disrupção que o pecado introduziu afetou o homem em todas as partes de sua natureza, e resultou em distúrbios que envolvem todas as três partes de seu ser -- espírito, alma, e corpo. Enquanto podemos ser capazes de fazer algumas observações e traçar conclusões, estamos definitivamente em um domínio onde somente Deus pode compreender plenamente.

Ao mesmo tempo, não permitamos o que não podemos entender estragar e talvez obscurecer o que podemos compreender. Voltemos a lembrar que "Seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade" (2 Pedro 1:3). Se, durante essa discussão, encontrarmos coisas que estão além de nosso entendimento, não sejamos desencorajados. Se Deus não nos disse algo, então podemos descansar assegurados de que não é necessário para a vida e piedade. Deus não escolheu satisfazer toda a nossa curiosidade, mas Ele nos deu o que é necessário para viver para Sua glória neste mundo.